15:07 · 30 de setembro de 2026

Eleições no Brasil 2026: o impacto nos mercados

Principais conclusões
Principais conclusões
  • As eleições brasileiras de 2026 podem afetar a bolsa, o real, as taxas de juro e os fluxos de matérias-primas, dependendo das políticas económicas e comerciais do próximo governo.
  • A dívida pública é um dos principais desafios para o Brasil, tendo a dívida bruta do Governo Geral aumentado de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 82,5% em julho de 2026.
  • O Brasil tem um papel estratégico nos mercados globais de matérias-primas, sendo um importante produtor e exportador de soja, minério de ferro e petróleo e detendo grandes reservas de minerais críticos, como terras raras, grafite e nióbio.
  • A China e os EUA são determinantes para as perspetivas das exportações brasileiras, com alterações nas tarifas e nos fluxos comerciais a poderem afetar os mercados de soja, carne, café, petróleo e minerais.
  • Para os mercados, os principais fatores a acompanhar após as eleições serão a política fiscal, o comércio internacional, os minerais críticos, a energia e o câmbio.

A primeira volta das eleições presidenciais no Brasil acontece este domingo, 4 de outubro. O atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, e o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, surgem como os dois principais candidatos nas sondagens mais recentes, numa disputa marcada por diferenças reduzidas entre os principais nomes.

Para os mercados, o resultado vai muito além da reação da bolsa brasileira. O próximo governo terá de lidar com a evolução da dívida pública, as taxas de juro, o câmbio e a política comercial, num país que é simultaneamente uma potência agrícola, energética e mineira.

O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de soja, um dos maiores produtores de minério de ferro e possui importantes reservas de minerais críticos, incluindo terras raras e nióbio. Por isso, as decisões do próximo governo podem ter impacto não só no Ibovespa e no real, mas também nos fluxos globais de matérias-primas, sobretudo num contexto de competição comercial entre China, EUA e Europa.

Dívida pública e juros: o principal desafio para o Brasil

A trajetória da dívida pública voltou a ser um dos principais pontos de atenção para os mercados. A dívida bruta do Governo Geral passou de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 82,5% em julho de 2026.

Ao mesmo tempo, o défice nominal do setor público atingiu 9,34% do PIB nos 12 meses até julho, refletindo sobretudo o peso dos juros.

Dívida bruta do governo geral de 2020 a 2026
BCP SGE

Bolsa brasileira: como evoluiu durante Bolsonaro e Lula

O Ibovespa passou de 87.887 pontos em dezembro de 2018 para 183.477 pontos em 25 de setembro de 2026, uma valorização de 109% em reais e de 56% em dólares.

A comparação com outros mercados mostra, contudo, um desempenho menos expressivo no longo prazo. Entre 2019 e agosto de 2026, o MSCI Brazil acumulou uma valorização de 59% em dólares, contra 120% do MSCI Emerging Markets e 196% do MSCI ACWI.

Durante o mandato de Bolsonaro, o MSCI Brazil perdeu 2,5%, enquanto o MSCI Emerging Markets ganhou 10,7%. No período de Lula até agosto de 2026, o índice brasileiro avançou 63%, contra 99% do MSCI Emerging Markets.

O Brasil superou os restantes mercados em 2022, 2023 e 2025, períodos em que a evolução das matérias-primas e as expectativas em torno das taxas de juro favoreceram uma bolsa com forte exposição a energia, mineração e bancos.

Comparação dos rendimentos brutos anuais do Ibovespa com os do MSCI Brazil, do MSCI EM e do MSCI ACWI
MSCI

Matérias-primas: o peso do Brasil nos mercados globais

O Brasil é uma das maiores potências mundiais em matérias-primas agrícolas, energéticas e minerais. Em 2025, as exportações atingiram cerca de 349 mil milhões de dólares, com soja, petróleo e minério de ferro entre os principais produtos. A China absorveu cerca de 29% das exportações brasileiras, reforçando a importância do país para as cadeias de abastecimento globais.

Minerais críticos, agricultura e energia

No minério de ferro, o Brasil é um dos maiores produtores mundiais, com cerca de 416 milhões de toneladas exportadas em 2025. Nos minerais críticos, a posição do país é particularmente relevante: o Brasil é o maior produtor mundial de nióbio e possui algumas das maiores reservas de terras raras e grafite. No entanto, a produção de terras raras continua muito abaixo da dimensão das reservas, o que significa que transformar esse potencial em oferta exige investimento, licenciamento e capacidade de processamento.

Na agricultura, a soja é o principal produto de exportação do agronegócio brasileiro, com um volume recorde de 108,2 milhões de toneladas exportadas em 2025. O Brasil é também o maior produtor e exportador mundial de café e carne bovina.

Na energia, o petróleo ganhou peso na pauta exportadora. As exportações de petróleo bruto atingiram 44,5 mil milhões de dólares em 2025, enquanto a produção brasileira continuou a crescer, impulsionada pelo pré-sal.

Principais destinos das exportações do Brasil em 2025
MDIC

Brasil, China e EUA: cadeias de abastecimento e tarifas

A posição do Brasil nas cadeias de abastecimento globais expõe o país a decisões comerciais de grandes parceiros, sobretudo China e EUA.

A China comprou cerca de 100 mil milhões de dólares de produtos brasileiros em 2025, equivalentes a cerca de 29% das exportações do país. Soja, petróleo, minério de ferro e carne bovina representaram a maior parte desses fluxos.

Os EUA continuam a ser outro mercado importante, mas as relações comerciais mudaram com a introdução de novas sobretaxas em 2026. Em julho, o Brasil estimava que 23,1% das suas exportações para os EUA estavam abrangidas pelas novas medidas, enquanto 52,7% permaneciam sem tarifas adicionais específicas ou setoriais. A China também introduziu novas restrições ao comércio brasileiro: a partir de 1 de outubro de 2026, uma tarifa adicional de 55% sobre carne bovina brasileira será aplicada depois de atingida a quota anual de importação.

Neste contexto, a orientação comercial do próximo governo poderá influenciar a diversificação dos mercados de exportação, o investimento em minerais críticos e a posição do Brasil nas cadeias de matérias-primas. ​​​​​​​

Quatro canais a acompanhar nos mercados após as eleições

O resultado eleitoral será apenas o primeiro passo. Para os mercados, a reação dependerá sobretudo das primeiras decisões do próximo governo em matéria de política fiscal, juros, comércio e investimento. Estes são os quatro canais que poderão determinar o impacto sobre os ativos brasileiros e, em alguns casos, sobre os mercados globais.

  • Política fiscal e câmbio: a trajetória da dívida e do défice será determinante para as expectativas de inflação e juros. Uma deterioração das contas públicas poderá pressionar o real e aumentar a volatilidade dos ativos brasileiros.
  • Comércio e matérias-primas: a relação com a China e os EUA será relevante para um país dependente das exportações de commodities. Alterações nas tarifas ou nos fluxos comerciais podem afetar as exportações de soja, carne, café, petróleo e minério de ferro.
  • Minerais críticos: terras raras, grafite e nióbio representam uma oportunidade estratégica, mas transformar reservas em produção exige investimento, licenciamento e capacidade de processamento. As políticas do próximo governo poderão influenciar a integração do Brasil nestas cadeias globais.
  • Energia e Petrobras: o petróleo continuará a ser uma das principais ligações entre a política brasileira e os mercados globais. As decisões sobre investimento, produção, dividendos e preços dos combustíveis poderão afetar a Petrobras, o Ibovespa e a oferta futura de petróleo brasileiro.

Henrique Tomé

Analista XTB

Henrique Tomé é analista de mercados financeiros, trader e investidor, com especialização em análise macroeconómica e no impacto desta nas diferentes classes de ativos. As suas análises e perspetivas sobre a evolução económica têm sido destacadas e reconhecidas por meios de referência nacionais e internacionais, incluindo o Financial Times. É formado em Finanças e Contabilidade e possui uma pós-graduação em Mercados Financeiros e Gestão de Risco pela Nova SBE.

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