O mercado do cacau está atualmente a atravessar uma divisão geográfica fascinante. Enquanto o Velho Continente se debate com a estagnação e a queda da procura, os «tigres asiáticos» estão a processar a matéria-prima em grande escala, atingindo os níveis de processamento mais elevados dos últimos anos. O mercado do cacau enfrenta atualmente muitos problemas, principalmente a possível ocorrência do El Niño mais forte dos últimos 70 anos. Por outro lado, as condições meteorológicas atuais em África podem indicar melhores colheitas na próxima época. O que revelam os dados?
Decepção na Europa (2.º trimestre)
Os dados relativos ao processamento europeu, ou seja, a moagem de cacau, revelaram-se um balde de água fria para os otimistas que esperavam uma estabilização da procura ocidental.
- Dados: A Associação Europeia do Cacau (ECA) informou que o processamento no 2.º trimestre registou uma queda de 4,6% em termos homólogos, atingindo 316 366 toneladas (em comparação com 331 762 toneladas no mesmo período do ano anterior e face às expectativas de 325 000 toneladas);
- Abaixo das expectativas: Esta queda é significativamente mais acentuada do que os analistas consultados pela Bloomberg tinham estimado, os quais esperavam uma diminuição de apenas 1,5%;
- Tendência trimestral: Este resultado é também mais fraco do que o do trimestre anterior (325 895 toneladas). Isto demonstra que os preços recorde das matérias-primas e a pressão inflacionista afetaram efetivamente as margens dos fabricantes europeus de produtos de confeitaria.
Forte recuperação na Ásia
Em total contraste com a Europa, os dados mais recentes da Ásia apontam para uma forte recuperação na indústria de transformação.
- Ásia Total (CAA): A transformação de cacau no segundo trimestre cresceu uns incríveis 25,07 % em termos homólogos, atingindo 224 646 toneladas;
- Malásia (MCB): Os dados da própria Malásia confirmam esta tendência, tendo a indústria local registado um crescimento de 29,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, para 90 849 toneladas. No primeiro semestre do ano (1.º semestre), a transformação na Malásia registou um sólido crescimento de 18,1%;
- Dados recentes da Barry Callebaut sugeriram uma forte recuperação da procura por parte dos consumidores na Ásia e uma estagnação contínua no mundo ocidental.
Será que a Ásia se tornará a principal força motriz da procura?
Comparando os volumes em termos absolutos, a Europa continua a ocupar a posição de liderança:
- Europa (2.º trimestre): ~316 mil toneladas;
- Ásia (2.º trimestre): ~225 mil toneladas.
A diferença situa-se atualmente em cerca de 91 mil toneladas a favor da Europa. Embora o Velho Continente continue a deter a liderança em termos quantitativos, a Ásia é atualmente o motor indiscutível do crescimento da procura global.
É altamente provável que os mercados asiáticos assumam a liderança a médio prazo, por três razões:
- Classe média em crescimento: O consumo de chocolate e de produtos de cacau em países como a China, a Índia e os Estados da ASEAN está em constante crescimento, enquanto os mercados ocidentais já se encontram saturados;
- Custos operacionais: A transformação está a deslocar-se para locais onde os custos de energia e de mão-de-obra são mais baixos e os mercados estão a crescer de forma dinâmica;
- Mudanças estruturais entre os produtores: Os planos dos principais produtores africanos (Costa do Marfim e Gana) para limitar a exportação de grãos em bruto e desenvolver o processamento local irão afetar as fábricas europeias, conferindo uma vantagem aos mercados emergentes mais flexíveis.
Vale também a pena referir que o processamento no maior país produtor, a Costa do Marfim, cresceu 28 % em relação ao ano anterior, atingindo 158 672 toneladas. Ao mesmo tempo, registou-se uma ligeira diminuição em comparação com o primeiro trimestre, quando foram transformadas 169 mil toneladas de cacau.
Análise das condições meteorológicas e o espectro do El Niño: o que nos espera?
A situação meteorológica nas principais regiões de cultivo é atualmente muito variável e está intimamente ligada aos ciclos climáticos globais.
Situação meteorológica atual (meados de julho):
-
África Ocidental (Costa do Marfim, Gana): A precipitação atual favorece a vegetação e melhora o estado das árvores de cacau antes da próxima colheita principal. As temperaturas mantêm-se dentro da normalidade;
- Sudeste Asiático (Indonésia, Malásia): A precipitação é mais dispersa e local, o que se traduz em condições desfavoráveis para as culturas;
- Brasil (Bahia): Verifica-se a secura sazonal típica.
Impacto e perspetivas do El Niño:
De acordo com as previsões meteorológicas atuais para o segundo semestre do ano, está a desenvolver-se um forte fenómeno El Niño no Pacífico. Os modelos da NOAA e da OMM indicam que as anomalias da temperatura da água já atingiram valores elevados (índice Niño 3.4 acima de +1,5 °C), o que prenuncia um dos El Niños mais fortes dos últimos anos, com pico na viragem do ano.
O modelo da NOAA aponta para uma probabilidade superior a 80 % de ocorrência de um Super El Niño no período de outubro-novembro-dezembro e de 100 % para a ocorrência do fenómeno em geral. A temperatura na região El Niño 3.4 já excede os valores normais e aponta, neste momento, para a ocorrência de um El Niño moderado.
Como é que isto irá afetar o mercado do cacau?
- Seca no Sudeste Asiático: O fenómeno El Niño traz tradicionalmente um défice de precipitação e temperaturas elevadas na Indonésia e na Malásia. As chuvas atuais, desfavoráveis e dispersas nessa região, são um sintoma direto da seca que se aproxima. Tal poderá limitar gravemente as colheitas locais e obrigar as fábricas de transformação asiáticas a importar grãos mais caros de outras partes do mundo.
- Risco para a África Ocidental: Embora as chuvas de julho proporcionem um alívio temporário à Costa do Marfim e ao Gana, um El Niño forte no final do ano traz normalmente um vento seco e desértico, o Harmattan, de intensidade crescente, e uma grave escassez de precipitação. Isto significa que a atual melhoria nas condições meteorológicas pode ser apenas a calma antes da tempestade. Se o El Niño atingir a intensidade prevista, os mercados poderão enfrentar outra crise profunda de abastecimento no final do ano.
Cacau (D1)
O preço inicia a sessão de hoje dando continuidade à sua recuperação. É possível constatar que as três sessões anteriores revelaram uma procura clara acima dos 5500 USD por tonelada.
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