O Banco Central Europeu (BCE) deverá aumentar hoje as taxas de juro, uma decisão que o mercado já incorporou praticamente na totalidade. Com a inflação da zona euro a acelerar para 3,3% e os preços da energia a manterem-se elevados, a atenção dos investidores estará sobretudo nas declarações de Christine Lagarde e nos sinais sobre um possível novo aumento das taxas em dezembro.
Um aumento acentuado dos preços das matérias-primas energéticas em meados de julho levou a uma reavaliação de tendência restritiva no mercado (o que representa um aumento das expectativas de uma política monetária mais restritiva).
O mercado já espera um aumento das taxas de juro
Há quase dois meses que o mercado está praticamente convencido de que a reunião de hoje do Banco Central Europeu irá concluir-se com um aumento das taxas de juro. Esta medida está, neste momento, totalmente descontada nos preços, qualquer outra decisão constituiria uma pequena surpresa para os investidores.
Estas expectativas foram reforçadas por declarações cada vez mais «hawkish» por parte dos membros do Conselho do BCE. Muitos deles salientaram recentemente que, enquanto a taxa de juro de referência não ultrapassar os 2,5%, é difícil falar de uma política monetária restritiva. Entre aqueles que se pronunciaram neste tom contam-se Philip Lane (economista-chefe do BCE), Gabriel Makhlouf (governador do Banco Central da Irlanda) e Gediminas Simkus (governador do Banco da Lituânia).
Em primeiro plano está a persistência do choque inflacionista causado pela guerra no Irão. Em agosto, a inflação na zona euro atingiu os 3,3%, o seu nível mais elevado em quase três anos. O valor global mantém-se agora acima da meta de 2% do BCE há seis meses. Os defensores do aumento das taxas de juro contam também com o apoio da surpreendente resiliência da zona do euro — apesar do aumento dos custos energéticos, a economia europeia está a apresentar um desempenho melhor do que o esperado, e os dados robustos de crescimento do PIB para o segundo trimestre de 2026 levaram os analistas a rever em alta as suas previsões para o ano inteiro.
Além disso, os defensores de uma política monetária mais restritiva argumentam que fatores estruturais, como o envelhecimento da população, a desglobalização e uma oferta crescente de ativos seguros nos mercados de capitais globais, estão a empurrar-nos para taxas mais elevadas (ou, melhor dizendo, para um nível mais elevado da taxa neutra).
O que esperar das declarações de Lagarde?
Hoje, os investidores vão centrar a sua atenção nas declarações da presidente Lagarde, em particular nas que dizem respeito às perspetivas de um novo aumento das taxas em dezembro. O mercado já está a precificar quase na totalidade essa medida.

No entanto, isto não significa que o caminho para novos aumentos das taxas de juro venha a ser fácil. A facção «dovish» já está a manifestar preocupação com um arrefecimento excessivo da economia, salientando que a inflação subjacente se mantém em níveis muito moderados (2,4 % em agosto). Será crucial a forma como o presidente do BCE avaliar a persistência do atual choque energético — a ênfase nesta questão será interpretada como um forte argumento a favor de um novo aumento das taxas de juro em dezembro.
As novas projeções macroeconómicas também suscitarão interesse. Os analistas esperam que a projeção de inflação para 2027 seja revista em alta em cerca de 0,2-0,3 pp., o que, na nossa opinião, constituiria um ajustamento relativamente menor.
A título de nota à parte, crescem as especulações sobre uma eventual saída antecipada de Lagarde. A francesa é a principal candidata para assumir a presidência do Fórum Económico Mundial.
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