11:18 · 20 de agosto de 2026

EURUSD testa o nível de 1,17 devido a Bessent

Uma intervenção sem precedentes do Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, desencadeou uma profunda reestruturação no sistema financeiro global. A decisão de, pelo menos, duplicar a escala das recompras de obrigações do Tesouro a longo prazo (para um mínimo de 4 mil milhões de dólares por operação, com prazos de vencimento entre 10 e 30 anos) travou a subida das taxas de rendibilidade da dívida norte-americana, mas ocorreu simultaneamente à custa da própria moeda.

O dólar sofreu todo o impacto do ajustamento do mercado, empurrando a taxa EUR/USD para o nível-chave de resistência em 1,1700. Embora a decisão do Departamento do Tesouro tenha como objetivo principal limitar a recente subida das taxas de rendibilidade na parte longa da curva, a evolução dos TNOTES não justifica uma variação tão acentuada do dólar. A ata da reunião de ontem do FOMC não trouxe novas informações para o mercado e indica que continua a existir uma facção bastante numerosa no seio do banco central dos EUA que gostaria de aumentar as taxas de juro neste momento, embora o próprio Kevin Warsh não se encontre entre eles.

Fonte: Bloomberg Finance LP, XTB

O EURUSD recupera para 1,17, apesar de a variação nos preços das obrigações ser relativamente pequena. Curiosamente, o diferencial de rendimentos entre a Alemanha e os EUA chegou mesmo a diminuir recentemente.

O Plano de Bessent: Um amortecedor, mas não uma solução para a dívida

A dívida pública dos EUA ter ultrapassado a barreira dos 40 biliões de dólares e os rendimentos dos títulos a 30 anos terem atingido os 5,34% obrigaram Washington a abandonar o princípio anterior de «previsibilidade» na gestão da dívida. Na avaliação dos analistas de Wall Street (incluindo da Franklin Templeton, da Nomura ou da Barrenjoey), as medidas de Bessent funcionam apenas como um «disparador» do mercado.

Uma operação destinada à recompra de obrigações menos líquidas e com prazos de vencimento mais longos alivia as tensões temporárias de liquidez, mas não elimina problemas fundamentais, tais como:

  • Um défice orçamental gigantesco e uma oferta recorde de títulos do Tesouro.
  • Inflacção persistente, que tem sido alimentada pelos elevados preços da energia há quase meio ano.
  • Pressão de oferta por parte do setor das IA, que está a emitir em massa obrigações empresariais para financiar infraestruturas e é visto por alguns como concorrência para os títulos do Tesouro.

A situação manteve-se tensa não só nos Estados Unidos, mas também na Europa e no Japão, onde se observaram aumentos das taxas de rendibilidade dos títulos de dívida de longo prazo para os níveis mais elevados dos últimos anos.

A narrativa da desvalorização do dólar

Uma vez que a intervenção do Departamento do Tesouro não conseguiu reduzir permanentemente as taxas de rendibilidade, o dólar americano tornou-se a «válvula de segurança» do mercado. Os analistas apontam para a crescente disposição de Washington em orientar manualmente o mercado, desde intervenções cambiais coordenadas com o Japão até à supressão artificial dos custos de vencimento da dívida. O Deutsche Bank, no seu comentário, indica que o Tesouro pode recomprar obrigações, mas, ao mesmo tempo, não pode «recomprar o dólar». O banco central poderá ser responsável por isso e, como é sabido, Kevin Warsh não é grande fã do balanço inflacionado da Reserva Federal. No entanto, pelo menos por enquanto, podemos constatar que o capital poderá procurar refúgio noutros locais, tais como o mercado bolsista, o ouro ou outras moedas consideradas portos de refúgio, como o franco suíço.

EURUSD testa os 1,17, enquanto as moedas dos mercados emergentes poderão dar uma pausa após a recente onda de vendas

A fraqueza do dólar é visível a olho nu no par mais importante, o EUR/USD, que, na sequência do forte crescimento de ontem, continua hoje a sua trajetória e ultrapassa o nível de 1,17. Recentemente, observámos uma ligeira sobrecompra do dólar norte-americano e uma sobrevenda de outras moedas, como o euro ou o dólar australiano. Agora, com a nova estratégia dos EUA, esta situação poderá inverter-se.

EURUSD (D1)

Fonte: xStation5

O EURUSD rompeu para cima o canal de tendência de crescimento e atinge uma faixa de recuperação semelhante à registada em abril deste ano. A quebra do nível de retração de 61,8% da última grande onda descendente anula a força desse impulso, o que poderá permitir uma tentativa de testar a zona de 1,1780-1,1800. Por outro lado, convém referir que os preços das obrigações dos EUA, neste momento, não justificam níveis tão elevados. Fonte: xStation5

Posicionamento dos especuladores nos principais mercados

Fonte: Bloomberg Finance LP, XTB

O euro encontra-se atualmente na situação de maior sobrevenda nos contratos desde o início de 2025. Um posicionamento negativo tão extremo pode favorecer uma nova recuperação do par EURUSD, caso os especuladores comecem a alterar a direção das suas posições.

Fonte: Bloomberg Finance LP, XTB

As posições líquidas no índice do dólar atingiram o nível mais elevado desde 2023.

Fonte: Bloomberg Finance LP, XTB

As posições líquidas nos títulos do Tesouro dos EUA a 10 anos mantêm-se em níveis muito baixos. Se observarmos uma recuperação das posições longas, tal poderá constituir um sinal claro de uma potencial descida das taxas de rendibilidade.

João Cruz

Analista XTB

João Cruz é Analista de Mercados Financeiros na XTB Portugal, onde participa na produção de conteúdos educativos (artigos, vídeos e webinars) dirigidos a investidores de retalho. Possui experiência em trading e na análise de diferentes classes de ativos, com especial foco na análise técnica de índices e ETFs.

Colabora com a Rankia na criação de conteúdos financeiros e publica análises de mercado em plataformas como o Investing Portugal. É ainda o criador do projeto From Trader to Trader, que integra um canal de YouTube dedicado à análise técnica de ativos financeiros e um blog com cerca de 400 artigos publicados sobre análise macroeconómica e análise técnica.

Encontra-se atualmente em fase de conclusão da licenciatura em Finanças pela Universidade de Aveiro.

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