A decisão de Vladimir Putin de colocar os ativos russos da Nestlé (NESN.CH) sob administração externa temporária constitui um forte lembrete dos riscos geopolíticos contínuos que as empresas ocidentais que operam na Rússia enfrentam. Esta medida, que também visa as cadeias de retalho francesas Auchan e Lemana Pro (anteriormente Leroy Merlin), desencadeou uma reação imediata por parte dos investidores e uma queda acentuada no preço das ações da gigante alimentar suíça.
Circunstâncias fundamentais e o processo de aquisição
Nos termos do novo decreto presidencial, as operações russas das empresas cotadas passarão a estar sob o controlo de uma entidade denominada L.E.V. Management. Embora o Kremlin, através de Dmitry Peskov, esteja a tranquilizar o público, afirmando que se trata apenas de uma «gestão externa temporária», a história sugere um cenário diferente. O recurso ao quadro jurídico de 2023 constitui um mecanismo habitual que, normalmente, representa o primeiro passo para uma nacionalização de facto e para a transferência de ativos para investidores ligados ao governo.
Os ativos pertencentes a gigantes como a dinamarquesa Carlsberg, a francesa Danone e a finlandesa Fortum já tiveram um destino semelhante. Para a Nestlé, que até agora continuou a operar de forma limitada na Rússia, isto significa uma perda quase certa do controlo sobre a cadeia de abastecimento local, as fábricas (que produzem, entre outros produtos, o café Nescafé e as barras KitKat) e as receitas provenientes desse mercado.
O Contexto Geopolítico Mais Alargado
A medida do Kremlin contra a Nestlé não é um acaso e faz parte de um jogo político mais alargado. A Suíça, apesar da sua neutralidade histórica, adotou a maioria dos pacotes de sanções da União Europeia na sequência da invasão em grande escala da Ucrânia em 2022. Moscovo declara abertamente que já não considera Berna um país neutro, o que retira o escudo protetor às empresas suíças.
Além disso, a apreensão dos ativos da Auchan e da Leroy Merlin, empresas que, ao longo de mais de dois anos de guerra, resistiram de forma excecional à pressão para abandonarem o mercado russo e resistiram às acusações de financiarem indiretamente o esforço militar da Rússia, demonstra que a lealdade ao mercado russo não protege contra a expropriação.
Para os investidores, a sessão de negociação de hoje e a queda técnica do preço das ações da Nestlé servem como um sinal de alerta. O prémio de risco para as empresas que ainda detêm ativos físicos ou operam na Federação Russa deve ser reavaliado, uma vez que o quadro jurídico de Moscovo permite a separação imediata e sem custos do capital ocidental da propriedade. O mercado aguarda agora estimativas oficiais da administração da Nestlé relativamente ao impacto exato da perda dos seus negócios na Rússia no seu balanço e nas previsões de receitas anuais.
A quebra abaixo do intervalo de consolidação de vários meses, acompanhada pela perda do POC (78,69 CHF), ocorreu com a divulgação da notícia de que a L.E.V. Management tinha assumido o controlo dos ativos russos, o que serviu de pretexto para a capitulação dos otimistas. Até que o preço volte a situar-se acima do intervalo 77,00/78,70 CHF, os indicadores técnicos apontam para uma vantagem do lado da oferta.
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