12:17 · 1 de setembro de 2026

Tim Cook deixa a Apple: 15 anos de transformação e o desafio de John Ternus

Fachada de uma loja da Apple com duas pessoas no canto esquerdo

Ontem, 31 de agosto, foi o último dia de Tim Cook como CEO da Apple, encerrando um dos mais longos e bem-sucedidos ciclos de liderança da história empresarial. A partir de hoje, 1 de setembro, John Ternus assume o cargo, enquanto Cook passa a Executive Chairman do conselho de administração, mantendo-se ligado a algumas áreas estratégicas da empresa, incluindo o relacionamento com responsáveis políticos.

Ao longo dos 15 anos de liderança de Cook, as receitas da Apple quase quadruplicaram, o resultado líquido mais do que quadruplicou e a capitalização bolsista passou de cerca de 349 mil milhões para aproximadamente 4,6 biliões de dólares. Mais do que aumentar a dimensão da empresa, Cook deixou uma Apple com maior escala, mais diversificada e com uma capacidade de geração de caixa muito superior à que recebeu de Steve Jobs.

A transformação financeira da Apple sob Tim Cook

Os resultados financeiros mostram a dimensão da transformação da Apple durante os 15 anos de liderança de Tim Cook. A empresa cresceu significativamente em receitas e lucros, mas também conseguiu melhorar as suas margens, demonstrando que o aumento de escala foi acompanhado por uma maior eficiência e rentabilidade.

Esta evolução foi impulsionada, em parte, pela crescente importância dos Serviços, que apresentam margens significativamente superiores às do negócio de hardware. Ao mesmo tempo, a Apple reforçou a sua capacidade de geração de caixa, criando recursos para financiar investimento, inovação e uma política de retorno de capital aos acionistas.

Principais métricas da Apple em 2011 vs 2025 e a respetiva evolução
Valores em milhões de dólares, com base nos relatórios anuais da Apple.

Como Tim Cook transformou a Apple num ecossistema de Serviços

Um dos principais legados de Tim Cook foi transformar os dispositivos da Apple numa plataforma para gerar receitas recorrentes. Em 2011, iTunes, software e serviços representavam cerca de 9,4 mil milhões de dólares em receitas. Em 2025, os Serviços geraram 109,2 mil milhões, passando de cerca de 9% para mais de 26% das receitas da empresa.

O iPhone continuou, contudo, no centro do negócio: as suas receitas aumentaram de 47,1 mil milhões para 209,6 mil milhões de dólares no mesmo período. A Apple diversificou as suas fontes de receita sem deixar de depender fortemente do seu principal produto.

Capital aos acionistas

O retorno de capital tornou-se outra das marcas do mandato de Cook. Desde 2012, a Apple devolveu aos acionistas quase 1 bilião de dólares através de dividendos e recompras de ações.

Só em 2025, a empresa recomprou cerca de 89,3 mil milhões de dólares em ações e pagou 15,4 mil milhões em dividendos. As recompras reduziram também o número de ações em circulação em cerca de 43% desde 2011, contribuindo para aumentar o lucro por ação.

O desempenho das ações da Apple durante o mandato de Tim Cook

Para os acionistas, o desempenho da ação é provavelmente uma das medidas mais evidentes do sucesso de Tim Cook. Quando Cook assumiu o cargo, a Apple tinha uma capitalização bolsista próxima de 349 mil milhões de dólares. No último fecho antes da transição, a empresa estava avaliada em aproximadamente 4,59 biliões de dólares, mais de 13 vezes o valor registado em 2011.

O desempenho da ação foi ainda mais impressionante. Ajustando o preço histórico aos desdobramentos de ações, a Apple valia cerca de 13,44 dólares por ação no dia em que Cook assumiu o cargo. Aos 319,70 dólares do último fecho antes da transição, a valorização acumulada é de aproximadamente 2.280%, sem considerar dividendos.

Desempenho das ações da Apple desde que Tim Cook assumiu o cargo de CEO da empresa. Fonte: Plataforma de investimentos da XTB

Mais escala, mas também mais investimento

A Apple terminou a era Cook maior, mas também com um investimento significativamente superior em inovação:

  • A despesa anual em I&D aumentou de 2,4 mil milhões de dólares em 2011 para 34,6 mil milhões em 2025, um crescimento superior a 1.300%.
  • O peso da investigação e desenvolvimento nas receitas também aumentou, passando de aproximadamente 2,2% para 8,3%.
  • O número de trabalhadores equivalentes a tempo inteiro também aumentou significativamente, de aproximadamente 60.400 em 2011 para 166.000 em 2025, um crescimento de cerca de 175%.

A Apple tornou-se, assim, uma empresa muito maior e mais complexa, com controlo sobre uma parcela crescente das tecnologias utilizadas nos seus produtos e uma presença muito mais forte em software e serviços.

O legado de Tim Cook e o início de uma nova fase para a Apple

Tim Cook não tentou ser uma réplica de Steve Jobs. O seu principal contributo foi transformar a Apple numa empresa maior, mais diversificada e mais previsível, com uma escala financeira sem precedentes.

Durante os seus 15 anos como CEO, as receitas quase quadruplicaram, o resultado líquido mais do que quadruplicou e os Serviços passaram a gerar mais de 109 mil milhões de dólares por ano. A Apple reforçou também a sua capacidade de gerar e distribuir capital, ao mesmo tempo que aumentou significativamente o investimento em investigação e desenvolvimento.

Com Cook agora como Executive Chairman e John Ternus à frente da empresa, começa uma nova fase para a Apple. O novo CEO herda uma empresa extraordinariamente rentável, mas também enfrenta o desafio de encontrar os próximos motores de crescimento, num contexto marcado pela inteligência artificial, pela evolução do mercado de smartphones e por uma maior pressão regulatória.

Quem é John Ternus e o que esperar da nova liderança?

John Ternus assume hoje o cargo de CEO depois de mais de duas décadas na Apple e de mais de uma década em posições de liderança na engenharia de hardware. Entrou na empresa em 2001 e, desde 2013, é vice-presidente sénior de Hardware Engineering, tendo liderado as equipas responsáveis pelo iPhone, iPad, Mac, AirPods e outros produtos. A Apple destaca também o seu trabalho em áreas como fiabilidade, durabilidade, materiais, design de hardware e reparabilidade.

A sua nomeação coloca à frente da Apple um perfil diferente do de Cook. Enquanto o anterior CEO ficou associado à escala operacional, à cadeia de fornecimento, à disciplina financeira e à expansão dos Serviços, Ternus chega com uma experiência mais diretamente ligada ao produto e à engenharia.

Para os investidores, será importante acompanhar se a nova liderança consegue acelerar a inovação sem comprometer a rentabilidade construída durante a era Cook. A estratégia de inteligência artificial, o lançamento de novos produtos e a capacidade de encontrar novos motores de crescimento para além do iPhone estarão entre os principais desafios desta nova fase.

Henrique Tomé

Analista XTB

Henrique Tomé é analista de mercados financeiros, trader e investidor, com especialização em análise macroeconómica e no impacto desta nas diferentes classes de ativos. As suas análises e perspetivas sobre a evolução económica têm sido destacadas e reconhecidas por meios de referência nacionais e internacionais, incluindo o Financial Times.

É formado em Finanças e Contabilidade e possui uma pós-graduação em Mercados Financeiros e Gestão de Risco pela Nova SBE.

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