11:17 · 4 de agosto de 2026

Cacau interrompe a sua forte recuperação 🚩 Voltam as preocupações com a produção na África Ocidental

Principais conclusões
Principais conclusões
  • Os futuros de cacau na ICE voltaram a descer para abaixo dos 6 000 dólares por tonelada, interrompendo a forte recuperação observada nas duas últimas sessões de negociação.
  • Os participantes no mercado estão preocupados com a possibilidade de que a precipitação abaixo da média e o tempo mais frio possam reduzir o potencial da próxima colheita principal de cacau na Costa do Marfim.
  • Apesar de as entradas de cacau na Costa do Marfim terem aumentado 21,8 % desde o início da atual época, os investidores estão cada vez mais focados nos riscos de produção para a campanha agrícola de 2026/27.

Os futuros do cacau na ICE estão a ser negociados hoje em ligeira descida, após terem registado uma subida acentuada nas duas últimas sessões, numa pausa do mercado na sequência de uma forte recuperação impulsionada pelas preocupações quanto às perspetivas para a colheita de 2026/27 na África Ocidental. Embora a época atual tenha proporcionado uma melhoria significativa na oferta, os investidores já estão a centrar-se na próxima colheita, que poderá ser afetada negativamente por condições meteorológicas desfavoráveis.

O mercado está a antever colheitas mais fracas e mais riscos meteorológicos

O principal fator por trás da recente recuperação é a preocupação com os futuros abastecimentos de cacau da África Ocidental, que representa a maior parte da produção global de cacau. Os agricultores da Costa do Marfim afirmam que as plantações necessitam de mais luz solar após um período de precipitação abaixo da média e temperaturas mais frias. Se as condições meteorológicas não melhorarem nas próximas semanas, a colheita principal, que decorre de setembro a fevereiro, poderá ser afetada negativamente.

Curiosamente, os preços estão a subir apesar dos dados positivos relativos à oferta para a época atual. As estimativas de exportação indicam que as chegadas de cacau aos portos da Costa do Marfim atingiram aproximadamente 1,99 milhões de toneladas desde o início da época, a 1 de outubro, o que representa um aumento de 21,8% em relação ao mesmo período do ano passado. Isto sugere que o mercado está a olhar para além da oferta atual e está, em vez disso, a precificar o risco de uma produção mais fraca durante o próximo ciclo de colheita.

O cacau continua a ser uma das matérias-primas agrícolas mais sensíveis às condições meteorológicas. Mesmo uma deterioração modesta das condições meteorológicas na Costa do Marfim e no Gana pode traduzir-se rapidamente num prémio de risco meteorológico mais elevado nos preços dos futuros. Consequentemente, espera-se que os investidores acompanhem de perto a precipitação, as temperaturas e o desenvolvimento das culturas nas próximas semanas, uma vez que estes fatores irão provavelmente determinar a direção dos preços do cacau antes da nova época.

Análise do «Commitment of Traders» (CoT)

Numa perspetiva do CoT, a estrutura do mercado a 28 de julho continua a ser favorável aos otimistas:

  • Os produtores e transformadores comerciais continuam a aproveitar os preços mais elevados para proteger a produção futura, o que constitui um comportamento típico dos participantes comerciais.
  • Os fundos de investimento continuam com uma posição líquida curta no relatório de 28 de julho, indicando que o posicionamento especulativo ainda não atingiu níveis eufóricos.
  • O elevado volume de posições em aberto sugere que está a entrar capital novo no mercado, em vez de a subida ser impulsionada exclusivamente pela cobertura de posições curtas.
  • Se as condições meteorológicas na Costa do Marfim e no Gana continuarem a deteriorar-se, os fundos de cobertura poderão ser forçados a cobrir agressivamente as suas posições curtas, proporcionando um impulso adicional à subida.

Isto cria um dos cenários mais interessantes no mercado de matérias-primas: os fundamentos estão a tornar-se cada vez mais otimistas, enquanto o posicionamento especulativo ainda não reflete todo o otimismo.

Os operadores comerciais continuam a cobrir a produção a preços mais elevados

O último relatório CoT mostra que os produtores e transformadores permanecem firmemente em posição líquida curta, detendo 55 928 contratos longos contra 74 361 contratos curtos, o que equivale a cerca de 18 400 contratos líquidos curtos. Este é um comportamento típico nos mercados de matérias-primas, onde os produtores garantem preços de venda atrativos em vez de especularem sobre a queda dos preços. Numa base semanal, as posições compradas dos operadores comerciais aumentaram em 1 152 contratos, enquanto as posições vendidas diminuíram em 1 590, indicando apenas uma redução modesta na atividade global de cobertura.

Os fundos de investimento ainda têm margem para impulsionar novos ganhos

Os fundos de investimento continuam a deter aproximadamente 8 800 contratos a descoberto líquidos (20 277 contratos de compra contra 29 050 de venda), o que sugere que o mercado ainda não entrou numa fase de exuberância especulativa. Se as preocupações com a produção da África Ocidental se intensificarem, os fundos de cobertura poderão ser forçados a cobrir estas posições a descoberto, o que poderá acelerar a recuperação. Apoiando a perspetiva de alta, o total de posições em aberto mantém-se acima dos 201 000 contratos, indicando que continua a entrar novo capital no mercado.

relatório do COT sobre as posições no Cacau
 

Fonte: CoT, Commitment of Traders

Gráfico do Cacau (D1)

Ao longo das duas últimas sessões, os futuros do cacau registaram uma subida de quase 10%, passando de cerca de 5 000 dólares para quase 6 000 dólares por tonelada. O mercado está agora a passar por uma ligeira correção após esta forte subida. O nível de suporte principal mantém-se próximo dos 5 000 dólares por tonelada, enquanto os principais níveis de resistência situam-se em torno dos 6 000 e 6 500 dólares, definidos pelas zonas de reação dos preços anteriores.

gráfico do cacau
 

Fonte: xStation

Henrique Tomé

Analista XTB

Henrique Tomé é analista de mercados financeiros, trader e investidor, com especialização em análise macroeconómica e no impacto desta nas diferentes classes de ativos. As suas análises e perspetivas sobre a evolução económica têm sido destacadas e reconhecidas por meios de referência nacionais e internacionais, incluindo o Financial Times.

É formado em Finanças e Contabilidade e possui uma pós-graduação em Mercados Financeiros e Gestão de Risco pela Nova SBE.

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