09:43 · 26 de maio de 2026

Ferrari Luce: Como o Primeiro 100% Elétrico Pode Impactar as Contas da Marca

Imagem do novo carro elétrico Ferrari Luce
Principais conclusões
Principais conclusões
  • Ferrari lança o primeiro elétrico “Luce” e ações caem mais de 6% após reação negativa do mercado.
  • Novo Ferrari Luce pode aumentar receitas e margens com preço acima de 550 mil euros e produção limitada.
  • Investidores e puristas questionam procura por superdesportivos elétricos e impacto real nas contas da Ferrari.

A Ferrari anunciou ontem seu primeiro automóvel 100% elétrico, o novo modelo Ferrari Luce. O novo modelo Luce representa uma oportunidade de crescimento de receita dado o seu posicionamento ultra-premium. Com um preço de partida de aproximadamente 550.000€, cada unidade gera cerca de 3 a 5 vezes mais receita do que um modelo Ferrari standard. No entanto, a reação dos investidores, para já, é de desilusão com as ações da empresa a recuarem mais de 6% esta manhã.

Com produção global estritamente limitada, mesmo algumas centenas de unidades por ano poderão ter um impacto relevante no preço médio de venda e nas receitas de personalização através do programa Tailor Made da Ferrari.

No primeiro trimestre de 2026, a empresa registou 1,85 mil milhões de euros de receita e 722 milhões de euros de EBITDA (+4% em termos homólogos), com uma margem EBITDA sólida de 39,1%, superando as estimativas de Wall Street.

O peso da nova aposta nas contas da empresa

O impacto do Luce nas contas da empresa vai muito além do preço de tabela. Um veículo elétrico a este nível de preço reforça o posicionamento da marca no segmento de ultra-luxo, o que tende a elevar o valor percepcionado de toda a gama, incluindo os modelos de combustão.

Do ponto de vista da tecnologia, a Ferrari registou mais de 60 patentes relacionadas com a arquitectura do motor e tecnologia do Luce. Este investimento em propriedade intelectual poderá gerar receitas de licenciamento a longo prazo e serve também como barreira à entrada de concorrentes no segmento de desportivos eléctricos de ultra-luxo.

No entanto, a grande questão  será perceber se o Luce consegue ter um impacto nas receitas da empresa que seja visível nos “earnings” dos próximos trimestres.

dashboard financeiro com as principais métricas da empresa
Bloomberg Financial Lp, XTB 

Visão geral das contas da empresa referentes ao 1º trimestre do ano.

Apesar das perspectivas animadoras sobre o potencial de vendas que o novo modelo 100% elétrico pode gerar, há riscos que devem ser tomados em consideração:

  • As tarifas norte-americanas de 25% sobre automóveis europeus, dado que os EUA representam um dos maiores mercados da Ferrari
  • Movimentos cambiais adversos já afetaram o crescimento no primeiro trimestre
  • A concorrente Lamborghini abandonou os seus planos de veículo eléctrico para 2030, citando que a procura por desportivos de luxo eléctricos é baixa

A Resiliência Financeira da Ferrari Face à Concorrência

A Ferrari é conhecida pelos seus carros de alta performance, mas também pela sua performance financeira que tem conquistado os investidores. Entre as marcas automóveis de grande consumo, a General Motors é a única empresa que conseguiu, de certa forma, uma tendência de crescimento linear das receitas, mas continua a ser uma empresa que não capta tanto a atenção dos investidores.

A Ferrari tem uma dívida líquida de apenas 1,30 mil milhões de dólares, o que a torna resiliente mesmo que as taxas de juro venham a subir significativamente (um risco que tem aumentado devido à situação dos preços da energia que ameaçam trazer novamente níveis de inflação altos).

Se compararmos a Ferrari com as empresas automóveis de gama alta, mais uma vez, não há concorrência.

Gráfico com métricas da empresa em relação à concorrência
Ycharts

Devido à solidez do seu negócio, a Ferrari apresentou sempre múltiplos elevados, com uma média de 45x nos últimos 5 anos.

Atualmente, é negociada a apenas 32x e nos últimos 10 anos, o EPS diluído cresceu 15,60%.

O Desafio do Motor Elétrico: Como Vão Reagir os Puristas da Ferrari?

Nenhum aspecto do lançamento do Luce é mais sensível do que a inexistência do motor à combustão. Para os puristas que admiram as décadas de engenharia de motores a combustão, o som inconfundível de um V12 em plena aceleração, faz com que a aceitação desta nova vertente da marca possa não ser bem recebida, tal como aconteceu com a primeira geração do modelo da Porsche com o modelo Taycan.

A transição para o eléctrico levanta para os puristas três preocupações fundamentais:

  • Perda da identidade sonora: O som do motor é, para muitos coleccionadores, o elemento mais emocional de uma Ferrari. Um veículo eléctrico, por definição, elimina esse elemento, e nenhuma simulação sonora artificial será aceite por este grupo como substituto legítimo
  • Diluição do valor dos modelos clássicos a combustão: Paradoxalmente, o lançamento do Luce poderá valorizar ainda mais os modelos V8 e V12 no mercado de coleccionismo, à medida que a percepção de escassez futura aumenta. Modelos como o 812 Superfast ou o F8 Tributo poderão tornar-se ainda mais procurados no mercado secundário
  • Risco de identidade de marca: Alguns puristas receiam que a Ferrari, ao perseguir novos compradores mais jovens e tecnologicamente orientados, acabe por alienar a base de clientes histórica que sustentou a marca durante décadas.

De uma forma geral, e tendo em conta todos os fatores analisados, conclui-se que o lançamento do novo modelo 100% elétrico pode realmente trazer benefícios para os resultados da empresa, uma vez que as margens financeiras são bastante apelativas. Contudo, existem riscos associados à entrada neste mercado elétrico, um segmento onde a marca ainda não tem histórico, o que poderá condicionar as metas de vendas planeadas.

Apesar disso, mesmo com o anúncio do modelo em fevereiro, a avaliação e os múltiplos da empresa continuam elevados, mostrando que os investidores estão confiantes nesta nova aposta.

Reação em bolsa, após o anúncio do novo modelo 100% elétrico

gráfico das ações da ferrari
App da XTB

As ações da Ferrari estão hoje a recuar mais de 6%. Esta reação demonstra alguma desilusão com o novo lançamento do modelo 100% e os receios dos investidores sobre o sucesso deste novo modelo que tem sido criticado pelos mais puristas.
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