09:30 · 8 de junho de 2026

Mundial no mercado: haverá oportunidades de investimento?

Aproxima-se o mundial de futebol organizado pelos EUA e no México este ano. Espera-se que o evento possa gerar mais de 30 mil milhões de dólares em atividade económica, onde o setor do turismo deverá ser o mais beneficiado.

Para termos ideia dos números, em 2025, os EUA receberam 68,3 milhões de turistas. Estes valores representaram uma quebra de cerca de 6% face a 2024 e uma descida de quase 15% em comparação com o recorde registado em 2018. Para a economia norte-americana no seu todo, este recuo não é dramático, uma vez que o turismo representa apenas cerca de 3% do PIB do país. Por outro lado, existem setores para os quais a saúde do turismo nos EUA é mais sensível.

Os representantes do setor hoteleiro já estão a dar o alarme devido à falta de reservas. Segundo os dados mais recentes, cerca de 80% dos hoteleiros queixam-se de que o volume de reservas está muito abaixo das expectativas, e perto de 70% dos inquiridos apontam o dedo às barreiras regulamentares que os clientes enfrentam. O setor acusa a FIFA de ter inflacionado o número de participantes no evento. Só em Filadélfia, a FIFA cancelou a reserva de 2000 quartos sem apresentar qualquer justificação.

Segundo a FIFA, o número de bilhetes vendidos já ultrapassou os 5 milhões, mais do que em 2018 e 2022 juntos. Contudo, há um fator importante a ter em conta: o número recorde de jogos e de seleções em prova. A própria organização deixa no ar se o recorde de assistência de 3,5 milhões de espectadores (que dura desde o Mundial de 1994) será ou não batido, apesar deste recorde na venda de bilhetes.

Se analisarmos os Mundiais anteriores, notamos que a percentagem de adeptos visitantes no público total não chega a metade dos espectadores nos estádios. Isto significa que o impacto nas entidades globais é menor do que o esperado, sendo os negócios locais os mais beneficiados. Além disso, o número de bilhetes vendidos costuma rondar ligeiramente acima dos 3 milhões. Vendas superiores a 5 milhões, como as mencionadas pela FIFA, podem trazer uma grande surpresa, tanto positiva como negativa, no que toca ao número de adeptos.

Setores expostos ao Mundial

  • Companhias aéreas: A América do Norte está geograficamente separada dos principais polos de adeptos de futebol, que se encontram na Europa e na América Latina. As companhias aéreas terão de ser o meio de transporte de eleição para os EUA, Canadá e México. Olhando para os 5 milhões de bilhetes, mesmo num mercado desta dimensão, isto significará um aumento expressivo da procura. No entanto, resta saber se este acréscimo se traduzirá em lucros, dada a situação difícil no mercado de combustível para aviação (jet fuel).
  • Empresas de aluguer de automóveis (rent-a-car): Os países norte-americanos, especialmente os EUA, dependem criticamente do transporte automóvel, o que obrigará os adeptos visitantes a adaptarem-se. Os beneficiários óbvios deste cenário serão as empresas de rent-a-car, mas, tal como no setor da aviação, os problemas acumulam-se. Estas entidades estão fortemente endividadas, os seus clientes também, e a situação parece estar apenas a piorar.
  • Hotéis: Uma das primeiras preocupações quanto ao sucesso do Mundial prende-se com a ocupação hoteleira. É aqui que se observa a maior surpresa, mas será mesmo assim? As cadeias hoteleiras globais são, como o nome indica, globais. O Mundial vai limitar-se a apenas 16 cidades, e nenhuma escala de sucesso ou fracasso deste evento será capaz de afetar significativamente os seus resultados. No que toca aos hotéis detidos pelos poucos REITs (Real Estate Investment Trusts) com concentração geográfica suficiente para sentirem os impactos da taxa de ocupação, estas entidades são pequenas, têm pouca liquidez e existem em número muito reduzido.
  • Casas de apostas: Um dos poucos setores, além da tecnologia e da defesa, com um desempenho fantástico em termos de lucros (embora nem sempre em avaliações), é o das empresas ligadas às apostas desportivas. A tendência neste setor resulta mais do desmantelamento de regulamentações que vigoraram durante décadas e da libertação de uma procura contida, do que propriamente da influência dos eventos desportivos em si. Ainda assim, uma grande concentração temporal de jogos importantes pode dar um apoio extra a estas empresas.
  • Vestuário: Há décadas que o Mundial é uma das principais montras para os fabricantes de vestuário desportivo promoverem os seus produtos. Teoricamente, este é também um período em que o interesse por este tipo de artigo deveria ser maior, mas a teoria não basta para tirar conclusões válidas. O que dizem os dados?

Desempenho dos mercados durante os Mundiais de Futebol

Analisando para o desempenho histórico, vemos de forma bastante clara que a ligação entre o Mundial e o comportamento dos principais índices é, na maioria das vezes, pouco correlacionada.

O que vale a pena destacar é que, no período analisado de cerca de 30 anos, os principais índices bolsistas revelam uma tendência para uma volatilidade relativamente baixa durante os meses de junho e julho, altura em que o campeonato se realiza.

 

No caso das companhias aéreas e das empresas de aluguer de automóveis, não existem dados qualitativos que permitam concluir que o mercado esteja, de facto, a antecipar uma melhoria da rentabilidade por causa do Mundial.

A situação é diferente no setor hoteleiro. Várias entidades de análise indicam que os hotéis americanos podem esperar um aumento nas receitas por quarto disponível (RevPAR) de 1,7% em termos homólogos, e de mais de 12% no mês do torneio propriamente dito. Contudo, importa notar que os estudos de entidades como a CoStar e a Tourism Economics não encontram total confirmação nas declarações de cadeias hoteleiras como a Hilton, que já em fevereiro previa que o crescimento das receitas seria menor, e não maior do que o esperado.

As empresas de investimento validam uma tese otimista (bullish) com base no Mundial para as empresas que vendem vestuário desportivo. Segundo a Bernstein, a Nike e a Adidas podem aumentar as vendas anuais em cerca de 4% adicionais. A Reuters, por sua vez, avançou que a Adidas espera mais 250 milhões de euros em encomendas graças ao Mundial. O Goldman Sachs também apontou a Puma como uma das beneficiárias.

Duas entidades que não tiveram um papel tão relevante em Mundiais anteriores, e que podem vir a ser a "carta fora do baralho" (wild card) em termos de mercado, são as empresas de alojamento local e as casas de apostas. A Airbnb garantiu uma parceria oficial com a FIFA, e a Deloitte prevê mais 380 000 hóspedes devido ao Mundial. A própria Airbnb declara um aumento de 80% na procura nas cidades anfitriãs, o que pode sugerir lucros reais e mensuráveis acima do consenso atual , algo que poderá ser particularmente importante no contexto de uma empresa que tem tido problemas claros de rentabilidade nos últimos trimestres.

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Fonte: xStation 5

Como é que as casas de apostas podem beneficiar com o Mundial?

As apostas desportivas e os jogos de sorte ou azar constituem um dos setores com maior crescimento, impulsionados pela vaga de desregulamentação levada a cabo pela nova administração dos EUA, pelo que uma surpresa nos resultados destas empresas pode (embora não tenha obrigatoriamente de) ser expressiva.

Uma das entidades para as quais o Mundial nos EUA pode representar um ponto de viragem é a DraftKings. A empresa é um dos líderes de mercado entre as casas de apostas nos EUA, e o sentimento do mercado em relação à empresa continua morno, em parte devido aos múltiplos de valorização elevados. Do lado dos dados financeiros, não há motivos para pessimismo. O EPS (lucro por ação) só no primeiro trimestre de 2026 subiu para os $0,2, o que supera em mais de 5 vezes as previsões. Com um crescimento de receitas na casa dos dois dígitos, uma margem bruta em torno de 76% e uma forte dinâmica (momentum), o mercado poderá em breve começar a focar-se mais nos pontos fortes da empresa do que nas suas ameaças.

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Fonte: xStation5

Em última análise, apesar da sua dimensão e do impacto real na economia de um país mesmo com as dimensões dos EUA, a influência do Mundial nos mercados financeiros será limitada, e muitas empresas que deveriam beneficiar do fluxo de adeptos de futebol à América podem acabar por desiludir.  

 

 

Henrique Tomé

Analista XTB

Henrique Tomé é analista de mercados financeiros, trader e investidor, com especialização em análise macroeconómica e no impacto desta nas diferentes classes de ativos. As suas análises e perspetivas sobre a evolução económica têm sido destacadas e reconhecidas por meios de referência nacionais e internacionais, incluindo o Financial Times.

É formado em Finanças e Contabilidade e possui uma pós-graduação em Mercados Financeiros e Gestão de Risco pela Nova SBE.

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