A Oracle deixou de ser vista apenas como uma empresa de software tradicional e passou a ser encarada pelo mercado como uma referência na infraestrutura necessária para o desenvolvimento da inteligência artificial. O forte crescimento da Cloud Infrastructure e um backlog de contratos de 638 mil milhões de dólares estão no centro desta transformação.
Mas será que o crescimento da procura é suficiente para compensar o elevado investimento em centros de dados, o aumento da dívida e a pressão sobre o cash flow?
Neste artigo, parte da rubrica ‘Ação no Radar’, analisamos os principais motores da Oracle, os riscos a acompanhar e os fatores que poderão determinar a reação da ação aos próximos resultados no dia 10 de setembro.
Assista à análise completa de Henrique Tomé no vídeo abaixo ou continue a leitura para mais detalhes.
Oracle apresenta crescimento recorde no FY2026
Os resultados do quarto trimestre do ano fiscal de 2026, divulgados a 10 de junho, mostraram uma forte aceleração do negócio. A receita total atingiu 19,2 mil milhões de dólares, mais 21% em termos homólogos, enquanto a receita Cloud cresceu 47%, para 9,9 mil milhões de dólares.
No conjunto do FY2026, a Oracle registou:
- Receita total de 67,4 mil milhões de dólares, +17% YoY;
- Receita Cloud de 34 mil milhões de dólares, +39%;
- Cloud Infrastructure de 18,1 mil milhões de dólares, +77%;
- EPS GAAP de 5,83 dólares, +34%;
- EPS non-GAAP de 7,63 dólares, +27%.
A Cloud Infrastructure tornou-se assim o principal motor de crescimento. A OCI acelerou de +55% no Q1 para +68% no Q2 e +93% no Q4 FY2026.
⚠️ Apesar dos resultados recorde, as ações caíram 8,9% após a divulgação. O mercado concentrou-se no elevado investimento necessário para sustentar o crescimento: o guidance aponta para até 95 mil milhões de dólares de capex no FY2027, enquanto a empresa prevê uma descida das margens brutas.
O backlog de 638 mil milhões de dólares é o centro da tese
Um dos números mais relevantes da Oracle é o seu RPO (Remaining Performance Obligations), que atingiu 638 mil milhões de dólares, mais 363% do que no ano anterior e aproximadamente sete vezes a receita guiada para o FY2027. Só no Q4, o backlog aumentou 85 mil milhões de dólares, ultrapassando também o consenso de 592,5 mil milhões de dólares.
A dimensão do backlog confirma uma procura muito elevada pela infraestrutura da Oracle. No entanto, o principal desafio passa agora pela sua conversão em receita e cash flow.
A apresentação destaca ainda que 75 mil milhões de dólares do backlog correspondem a hardware pré-pago pelo cliente e que a S&P estima que cerca de metade dos 638 mil milhões de dólares esteja associada à OpenAI.
Como a Oracle está a financiar o crescimento
O crescimento da Oracle está a exigir um investimento muito elevado. No FY2026, o cash flow operacional aumentou 54%, para 32 mil milhões de dólares, mas o capex disparou 162%, para 55,7 mil milhões de dólares.
O resultado foi um Free Cash Flow de -23,7 mil milhões de dólares, face a -0,4 mil milhões no FY2025.
Para financiar esta expansão, a Oracle levantou cerca de 43 mil milhões de dólares em dívida e 5 mil milhões em capital próprio durante o FY2026. Para o FY2027, prevê levantar aproximadamente mais 40 mil milhões de dólares, incluindo 20 mil milhões através de emissão de ações.
O elevado investimento surge numa altura em que a S&P cortou o rating da Oracle para BBB-, enquanto a Moody's colocou o outlook em negativo.
Próximos resultados da Oracle: o que esperar?
Os próximos resultados da Oracle estão previstos para quinta-feira, 10 de setembro, após o fecho de Wall Street, com a conference call prevista para às 22h00, hora de Lisboa.
As expectativas apontadas na apresentação são:
- Receita: 19,1 mil milhões de dólares;
- Crescimento da receita: +28,3% YoY;
- EPS non-GAAP: 1,74 dólares;
- Crescimento do EPS: +18,5% YoY.
O guidance da própria Oracle aponta para um crescimento da receita entre 27% e 29% e um EPS non-GAAP entre 1,72 e 1,76 dólares.
Como estas estimativas estão muito próximas do guidance apresentado pela própria Oracle, a reação do mercado poderá depender sobretudo das novas indicações da gestão.
Entre os principais pontos a acompanhar estão o guidance para o Q2, a evolução do capex e do Free Cash Flow e o plano de financiamento após o corte de rating. A empresa prevê ainda uma receita de 21,2 mil milhões de dólares no Q2 FY2027, enquanto o guidance para todo o FY2027 aponta para 90 mil milhões de dólares de receita e 95 mil milhões de dólares de capex bruto.
Os argumentos a favor da Oracle
A principal força da tese está na combinação entre a procura por infraestrutura de IA e a capacidade da Oracle para expandir rapidamente a sua oferta.
- Backlog em forte crescimento: Só no Q4, o RPO aumentou 85 mil milhões de dólares e ultrapassou o consenso de 592,5 mil milhões. A procura continua a exceder a capacidade instalada.
- Aceleração da OCI: O crescimento da Cloud Infrastructure passou de 55% para 68% e depois para 93%, mantendo uma trajetória de forte aceleração.
- Expansão da capacidade: A entrega de capacidade neste trimestre aproxima-se de 1 gigawatt, praticamente tanto como nos quatro trimestres anteriores combinados.
- Hardware pré-pago: Dos 638 mil milhões de dólares de backlog, 75 mil milhões correspondem a hardware pré-pago pelos clientes, reduzindo o capex líquido da Oracle.
- Valuation: Com a ação próxima dos 159 dólares, a apresentação indica uma negociação a cerca de 20 vezes o EPS guiado para o FY2027, de 8,05 dólares.
Quais são os principais riscos da Oracle?
Apesar do forte crescimento, existem vários fatores que poderão pressionar a ação:
- Deterioração do rating: A S&P cortou o rating da Oracle para BBB- em 9 de julho, o último nível antes de high yield, justificando a decisão com o aumento da dívida e o cash flow fortemente negativo. A Moody's colocou o outlook em negativo.
- Concentração de clientes: A S&P estima que cerca de metade dos 638 mil milhões de dólares de backlog esteja relacionada com a OpenAI, uma empresa que ainda não é rentável.
- Free Cash Flow negativo: O FCF foi de -23,7 mil milhões de dólares no FY2026 e a S&P projeta que possa aumentar o défice para aproximadamente 42 mil milhões de dólares.
- Aumento da dívida: A dívida total é de aproximadamente $129,5 mil milhões, enquanto a empresa planeia levantar mais cerca de 40 mil milhões.
- Diluição dos acionistas: O plano de financiamento inclui 20 mil milhões de dólares em emissão de ações, o que poderá diluir os atuais acionistas.
- Pressão sobre as margens: A própria empresa prevê uma descida das margens brutas ao longo do FY2027. Questões regulatórias: A Comissão Europeia está a analisar práticas de licenciamento cloud da Oracle.
Análise técnica da Oracle
As ações têm estado a dar sinais de recuperação depois de terem atingido o seu valor mais baixo este ano, perto dos 115$. No entanto, desde então que o movimento de recuperação tem ganho mais força. Neste momento, a quebra do padrão técnica “pennant” (visível no gráfico), está a apoiar a continuação do movimento de recuperação.
Como negociar as ações da Oracle
Além de investir diretamente nas ações da Oracle, é também possível negociar a empresa através de CFDs. Estes instrumentos permitem abrir posições de compra ou de venda sobre a cotação.
Se já é acionista da Oracle e acredita que a ação poderá desvalorizar, uma posição de venda através de CFDs pode ajudar a compensar parte das perdas dessa posição. Por outro lado, se espera uma subida, pode abrir uma posição de compra e procurar beneficiar da valorização da cotação.
Os CFDs são instrumentos alavancados, pelo que tanto os ganhos como as perdas podem ser ampliados. Uma gestão adequada do risco é, por isso, essencial.
Vale a pena investir na Oracle?
A Oracle encontra-se numa fase de transformação, com a infraestrutura de inteligência artificial a assumir um papel cada vez mais importante na sua estratégia de crescimento. Os números são expressivos: a Cloud Infrastructure cresceu 77% no FY2026 e o backlog atingiu 638 mil milhões de dólares. Ao mesmo tempo, o forte investimento necessário para expandir a capacidade está a pressionar o Free Cash Flow e a aumentar as necessidades de financiamento.
Os próximos resultados serão, por isso, importantes para perceber se a Oracle consegue transformar o enorme backlog em receitas e cash flow, mantendo simultaneamente o crescimento da OCI e controlando os custos associados à expansão.
A questão central para o mercado será perceber se a procura pela infraestrutura de IA continuará a crescer a um ritmo suficiente para justificar o investimento e o financiamento necessários para a suportar.
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