17:22 · 1 de outubro de 2026

O que esperar dos mercados no último trimestre de 2026?

Principais conclusões
Principais conclusões
  • 3 de novembro: as eleições intercalares redefinem o equilíbrio de poder no Congresso dos EUA e determinam o tom do fim do ano.
  • Dois cenários: com um Congresso dividido, o Rally de Natal ganha força. Com o domínio de um só partido poderá ficar comprometido.
  • Ações: a IA continua a liderar o S&P 500 e o Nasdaq 100, mas a concentração em megacaps exige gestão de risco.
  • Ouro e petróleo: o ouro procura novos máximos relativos. O petróleo deverá manter-se entre $60 e $90 até ao final do ano.
  • Cripto: o Bitcoin conta com a sazonalidade e os ETFs spot. O Ethereum conta com a clareza regulatória e a tokenização de ativos.

O ano de 2026 tem sido marcado por um equilíbrio frágil entre a incerteza política e o otimismo tecnológico. Desde a reeleição de Donald Trump no final de 2024, os mercados financeiros habituaram-se a navegar num ambiente de decisões políticas muitas vezes imprevisíveis e controversas. No entanto, à medida que entramos no último trimestre de 2026, o foco dos investidores globais afasta-se momentaneamente da Casa Branca e centra-se no Congresso norte-americano, com a chegada das eleições intercalares (midterms).

O quarto trimestre de 2026 apresenta-se historicamente como o período mais tático do ano e divide-se em dois atos. Em outubro, dominam a volatilidade e a apreensão em torno das midterms de 3 de novembro, que redefinem o equilíbrio de poder no Congresso dos EUA. Em novembro e dezembro, surgem o alívio e o otimismo, que frequentemente culminam no chamado Rally de Natal, a valorização das ações no final do ano.

O resultado eleitoral, com um Congresso dividido ou o domínio de um só partido, condiciona o cenário para o S&P 500, o Nasdaq 100, o dólar, o ouro, o petróleo e os criptoativos. Neste guia, analisamos cada ativo e os dois cenários que a XTB delineia para o fim do ano.

Como é que as eleições intercalares (midterms) nos EUA afetam os mercados?

As eleições de meio mandato não mudam o Presidente, mas redefinem a balança de poder na Câmara dos Representantes e no Senado. Para Wall Street, a ideologia política é secundária face à previsibilidade económica.

Durante os meses que antecedem as eleições, os mercados costumam registar picos de volatilidade. A possibilidade de um único partido dominar a Casa Branca e o Congresso (um cenário de sweep) assusta os investidores, pois abre a porta a alterações legislativas radicais, sejam elas pacotes de estímulos massivos que reavivem a inflação ou aumentos abruptos na carga fiscal.

Por outro lado, o cenário favorito dos mercados financeiros é o impasse político (gridlock). Um Congresso dividido garante que nenhuma fação conseguirá impor reformas estruturais disruptivas. Esta paralisia legislativa é vista como uma garantia de estabilidade, permitindo às empresas americanas manterem os seus planos de investimento e expansão sem receio de sobressaltos fiscais. Assim que as urnas fecham e a incerteza se dissipa, o capital que estava parado em ativos de refúgio regressa em força ao mercado acionista.

Porque é que as bolsas costumam valorizar no final do ano?

A mecânica do Rally de Natal A clarificação do cenário político em novembro atua como o gatilho perfeito para o Rally de Natal. Este fenómeno de valorização acionista no final do ano é suportado por dinâmicas muito concretas:

  • Primeiro, os grandes fundos de investimento institucionais realizam a chamada "rebalanceamento de carteiras", comprando os ativos com melhor desempenho do ano para embelezarem os seus relatórios finais.
  • Segundo, o quarto trimestre concentra os maiores eventos de consumo do ano (Black Friday, Cyber Monday e Natal).

Se os dados confirmarem que o consumidor americano (e europeu) continua resiliente, empresas dos setores do retalho, pagamentos e tecnologia recebem injeções massivas de capital, suportando a subida generalizada dos índices antes do fecho do ano civil.

Previsões por ativo para o 4.º trimestre de 2026

Para o último trimestre de 2026, a alocação de carteiras exige um olhar atento aos principais instrumentos que refletirão as decisões políticas e macroeconómicas.

S&P 500 e Nasdaq 100: a inteligência artificial continua a liderar

O mercado acionista norte-americano, em particular os seus dois grandes índices de referência, o S&P 500 (US500) e o Nasdaq 100 (US100), deverá experienciar uma fase de consolidação no início do trimestre antes da clarificação eleitoral, com a possibilidade de quedas antes as eleições de 3 de novembro. Após as eleições, a narrativa dominante continuará fortemente ancorada no superciclo da inteligência artificial (IA).

As elevadas despesas de capital (CAPEX) de gigantes tecnológicas como a Alphabet, que prevê investir entre 85 a 110 mil milhões de dólares anualmente, continuam a alimentar toda a cadeia de valor do setor. Empresas focadas em semicondutores (Nvidia), memórias (Micron), infraestruturas de dados e servidores de alta performance (como a Super Micro Computer) mantêm-se como os motores de crescimento inquestionáveis de Wall Street, ditando o ritmo de valorização tanto do S&P 500 como do Nasdaq 100.

Contudo, a elevada concentração da valorização dos índices num grupo restrito de megacaps tecnológicas obriga a uma gestão rigorosa do risco de carteira. Qualquer eventual ajuste nas margens ou nas previsões durante a época de resultados do terceiro trimestre poderá despoletar correções temporárias no S&P 500 e no Nasdaq 100.

No entanto, num cenário em que os fundamentais do setor permanecem intactos, essas descidas pontuais pré-eleitorais deverão ser interpretadas como oportunidades táticas de acumulação, uma vez que a liquidez atualmente à margem do mercado tenderá a regressar em força para alimentar o rally de fim de ano.

Gráfico e análise técnica do US100 e US500. Velas Japonesas Azuis (US100) e Velas Japonesas Brancas e Amarelas (US500)
App da XTB

Dólar e EUR/USD: porto de abrigo em outubro, FED e BCE em foco depois

O comportamento do Dólar Americano (USD) será um dos mais interessantes de observar. Em outubro, a moeda norte-americana deverá beneficiar do seu estatuto de porto de abrigo face à ansiedade pré-eleitoral. Contudo, após as eleições, as atenções viram-se novamente para a Reserva Federal (FED) e para o Banco Central Europeu (BCE).

A zona euro continua a lutar contra um fraco mercado interno e um fosso de inovação estrutural, o que poderá forçar o BCE a ser mais agressivo nos cortes de taxas. Se o EUR/USD recuar, as empresas exportadoras europeias poderão encontrar aqui um balão de oxigénio para os seus resultados de fim de ano.

Gráfico e análise técnica do EURUSD
App da XTB

Ouro e petróleo (Brent e WTI): o que esperar até ao final do ano

O Ouro tem sido o grande protagonista dos últimos anos, acumulando marcos históricos expressivos impulsionados pela desdolarização global e pelas compras massivas de bancos centrais, nomeadamente o Banco Popular da China. Com a incerteza das midterms e a persistente volatilidade geopolítica, o metal precioso apresenta condições técnicas e fundamentais perfeitas para procurar novos máximos relativos no quarto trimestre, servindo como um dos principais ativos de proteção para os investidores.

O mercado petrolífero navega em águas profundamente turbulentas, com a evolução dos preços no quarto trimestre dependente de um delicado equilíbrio entre a geopolítica e os fundamentais de oferta e procura.

De um lado, a escalada de tensão e o conflito no Médio Oriente constituem o principal fator de incerteza e o grande catalisador de volatilidade para o mercado do crude. A proximidade das infraestruturas petrolíferas regionais e o risco permanente de disrupção no Estreito de Ormuz, por onde transitam cerca de 20% do petróleo mundial, injetam um prémio de risco geopolítico constante nos preços. Qualquer eventual encerramento desta via de trânsito ou ataques direcionados à produção no Golfo Pérsico têm o potencial imediato de suprimir temporariamente a oferta global e catapultar as cotações do barril.

Por outro lado, em termos puramente fundamentais, o mercado enfrenta forças de sentido inverso. O trimestre será marcado pelo braço de ferro entre o potencial excesso de oferta, derivado do plano de reposição gradual de produção por parte da OPEP+ e da capacidade de exportação russa através de circuitos alternativos.

Sem uma escalada militar direta no Médio Oriente que provoque o corte efetivo no fornecimento de energia, este excedente estrutural de oferta e a prudência dos importadores colocam um teto nas subidas continuadas do barril de crude (Brent e WTI), mantendo a cotação sob pressão técnica e contida num intervalo bem definido até ao final do ano, possivelmente entre os $60 e os $90.

 Velas Japonesas Azuis (Petróleo WTI) e Velas Japonesas Brancas e Amarelas (Ouro)​​​​​

Bitcoin e Ethereum: o que pode impulsionar as criptomoedas no 4.º trimestre

O último trimestre do ano promete ser um período de forte tração para os ativos digitais. O Bitcoin (BTC) entra nesta fase suportado pela sazonalidade histórica positiva e pela consolidação dos ETFs spot em Wall Street, que garantem uma base sólida de procura institucional. À medida que a liquidez global aumenta com a descida das taxas de juro e a incerteza das midterms se dissipa, o Bitcoin volta a atuar como a principal reserva de valor digital e o barómetro do apetite pelo risco, preparando o caminho para um fecho de ano em máximos relativos.

Paralelamente, o Ethereum (ETH) beneficia do ambiente de maior clareza regulatória nos EUA e da tendência acelerada de tokenização de ativos reais impulsionada pelos gigantes de Wall Street. O ecossistema Ethereum oferece ainda o atrativo do rendimento passivo através do seu mecanismo de staking, tornando-se um ativo particularmente atrativo num contexto de taxas de juro em queda.

Gráfico e análise técnica da Bitcoin e Ethereum

Cenários para o fecho de 2026: Congresso dividido vs. domínio de um só partido

Com base na conjuntura atual, delineamos dois cenários macroeconómicos principais para o desenrolar do quarto trimestre:

Cenário principal: congresso dividido e aterragem suave

Este é o cenário de maior probabilidade, onde as eleições intercalares resultam num Congresso dividido. A ausência de sobressaltos legislativos confirma aos mercados que o ambiente fiscal se manterá estável. Em paralelo, a FED consegue gerir a política monetária sem provocar uma recessão (aterragem suave). A combinação de estabilidade política com a resiliência do consumo no final do ano despoleta um forte Rally de Natal. O VIX (apelidado como índice do "medo", mas que somente mede a volatilidade/agitação no mercado) poderá colapsar em novembro, o capital entra em força no setor tecnológico e de inovação (IA), e os índices globais fecham o ano civil em máximos.

Cenário de risco: controlo absoluto e choque inflacionário

Neste cenário menos provável, as eleições ditam um domínio absoluto de um só partido (Câmara, Senado e Presidência unificados). Os mercados antecipam imediatamente a emissão de mais dívida pública para financiar novas promessas políticas, o que faz disparar os rendimentos das obrigações norte-americanas (Treasuries). O custo de financiamento das empresas sobe abruptamente, asfixiando o apetite pelo risco. O Rally de Natal poderá não se concretizar. A liquidez tende a sair das ações e refugia-se de forma agressiva no Ouro e no Dólar, com os índices possivelmente a registarem um trimestre de perdas e correção.

Conclusão: o que decidirá o desempenho dos mercados até ao final de 2026

O último trimestre de 2026 será decidido, em grande medida, pelas eleições intercalares de 3 de novembro. Com um Congresso dividido (o cenário de maior probabilidade), a estabilidade política e a resiliência do consumo abrem caminho a um forte Rally de Natal. Com o domínio de um só partido (o cenário menos provável), a subida dos rendimentos das Treasuries poderá adiar o Rally de Natal e a liquidez poderá ir para o Ouro e o Dólar. Em paralelo, a inteligência artificial continua a ser o grande motor de Wall Street, mas a concentração em poucas megacaps exige uma gestão rigorosa do risco.

João Cruz

Analista XTB

João Cruz é Analista de Mercados Financeiros na XTB Portugal, onde participa na produção de conteúdos educativos (artigos, vídeos e webinars) dirigidos a investidores de retalho. É licenciado em Finanças pela Universidade de Aveiro e possui experiência em trading e na análise de diferentes classes de ativos, com especial foco na análise técnica de índices e ETFs. Colabora com a Rankia na criação de conteúdos financeiros e publica análises de mercado em plataformas como o Investing Portugal. É ainda o criador do projeto From Trader to Trader, que integra um canal de YouTube dedicado à análise técnica de ativos financeiros e um blog com cerca de 400 artigos publicados sobre análise macroeconómica e análise técnica.

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