10:20 · 2 de junho de 2026

Anthropic e OpenAI preparam-se para a bolsa. Qual oferece maior potencial para investidores?

Logotipos da Anthropic e da OpenAI lado a lado em um fundo escuro e tecnológico, divididos pela silhueta de um cérebro digital com circuitos luminosos

O anúncio do IPO da SpaceX reacendeu o debate sobre quais serão as próximas empresas privadas a entrar em bolsa. Entre os nomes mais aguardados para uma eventual estreia nos mercados ainda este ano destacam-se a Anthropic e a OpenAI, duas das empresas que lideram a corrida global pela inteligência artificial.

Embora a OpenAI continue a liderar em notoriedade global através do ChatGPT, a Anthropic tem surpreendido tanto os investidores como os utilizadores com um crescimento explosivo da receita e uma valorização que já ultrapassa a da rival.

À medida que ambas se aproximam de uma potencial entrada em bolsa, os investidores enfrentam a seguinte questão: apostar na empresa com a marca mais forte ou naquela que apresenta os indicadores financeiros mais impressionantes?

A corrida ao próximo grande IPO tecnológico

Segundo a Reuters, a Anthropic apresentou oficialmente um pedido confidencial de IPO junto da SEC a 1 de junho de 2026. Sabe-se também que a criadora do Claude contratou o escritório de advogados Wilson Sonsini para assessorar a operação.

Até ao momento, não foram divulgados mais detalhes, uma vez que este tipo de processo permite à empresa preparar a oferta pública sem revelar toda a informação financeira. Ainda assim, várias fontes apontam para o outono de 2026 como a data mais provável para a entrada em bolsa.

Quanto à entrada em bolsa da OpenAI, ainda não há notícias de que tenha apresentado um pedido formal de IPO. No entanto, a Reuters avançou que a empresa já está a trabalhar com bancos de investimento como a Goldman Sachs e a Morgan Stanley na preparação da documentação necessária para a operação. As fontes apontam para uma entrada em bolsa em setembro de 2026.

Duas empresas, duas estratégias de crescimento

Telemóvel aberto na app do Chatgpt em cima de teclado de laptop
Zulfugar Karimov / Unsplash

A Anthropic tem ganho terreno de forma consistente no segmento empresarial. O Claude Code, dirigido a programadores, e o Cowork, pensado para utilizadores menos técnicos, tornaram-se ferramentas amplamente adoptadas nas organizações mais exigentes. Esta estratégia tem sido determinante para expandir a base de clientes empresariais e reforçar a diferenciação face à concorrência.

Por outro lado, a OpenAI mantém uma vantagem clara no reconhecimento de marca junto do consumidor final através do ChatGPT, que continua a ser o produto de inteligência artificial mais reconhecido a nível global. Esta posição é difícil de replicar no curto prazo e confere à empresa uma base de utilizadores que a Anthropic ainda não atingiu na mesma escala.

Percentagem de empresas norte-americanas com assinaturas da OpenAI ou da Anthropic
Axios

Valorização da Anthropic supera a da OpenAI pela primeira vez

A Anthropic encerrou maio de 2026 com uma ronda de financiamento que a valorizou em 965 mil milhões de dólares, ultrapassando pela primeira vez a OpenAI. Apenas três meses antes, em fevereiro, a empresa estava avaliada em 380 mil milhões de dólares, ilustrando a velocidade da sua valorização. A ronda de financiamento foi liderada pela Altimeter Capital, Dragoneer, Greenoaks e Sequoia Capital.

O crescimento da receita é igualmente notável. Em finais de 2025, a Anthropic registava uma receita anualizada de cerca de 9 mil milhões de dólares. Em maio de 2026, esse número cruzou os 47 mil milhões, representando um crescimento superior a cinco vezes em apenas cinco meses. Para o segundo trimestre de 2026, a empresa comunicou aos seus investidores uma receita de 10,9 mil milhões de dólares, mais do dobro dos 4,8 mil milhões registados no primeiro trimestre.

No lado da OpenAI, a empresa fechou a sua própria ronda recorde de 122 mil milhões de dólares em março de 2026, saindo dessa operação com uma valorização de 852 mil milhões de dólares.

Apesar da escala financeira, a empresa não divulgou métricas de receita trimestrais equivalentes às da Anthropic, o que dificulta a comparação directa e reduz a transparência perante potenciais investidores.

Principais Indicadores Financeiros: Anthropic vs OpenAI

Principais Indicadores Financeiros da Anthropic e OpenAI
 

Anthropic brilha em termos de rentabilidade

A empresa está a caminho do seu primeiro trimestre com lucro operacional, projetado em 559 milhões de dólares para o segundo trimestre de 2026. Trata-se de um marco importante para o sector, que demonstra ser possível conciliar crescimento acelerado com sustentabilidade financeira, ainda que de forma transitória.

A OpenAI, em contraste, projecta não atingir a rentabilidade antes de 2030, esperando acumular perdas superiores a 600 mil milhões de dólares até lá, à medida que investe em capacidade computacional para escalar os seus modelos.

Importa, contudo, sublinhar que a própria Anthropic deverá regressar a território deficitário à medida que acelera os investimentos em infraestrutura para responder à procura crescente.

Gráfico a mostrar o interesse ao longo do tempo nas ações da Anthropic e OpenAI
Caplight Data

O interesse pelas ações da Anthropic aumentou consideravelmente. Os dados da Caplight, plataforma que acompanha a atividade no mercado privado de ações, mostram que o interesse pela Anthropic disparou mais de 650% nos últimos 12 meses.

A batalha de milhares de milhões pelos centros de dados

A corrida ao poder computacional é, provavelmente, o factor mais determinante para o sucesso a longo prazo de ambas as empresas.

A Anthropic enfrentou constrangimentos de capacidade nos últimos meses que limitaram a sua capacidade de servir clientes, mas respondeu a estas limitações através de acordos estratégicos com a SpaceX, Google, Broadcom e AWS, que representarão centenas de milhares de milhões de dólares em custos nos próximos anos. O acordo com a SpaceX prevê, por si só, um investimento de 15 mil milhões de dólares anuais em capacidade computacional.

A OpenAI moveu-se mais cedo nesta frente, fechando acordos de centros de dados no outono de 2025, e prevê gastar 50 mil milhões de dólares em recursos computacionais apenas em 2026. Esta antecipação representa uma vantagem de infraestrutura que a Anthropic está ainda a recuperar.

Os riscos que podem mudar a narrativa

Riscos da Anthropic

Do lado da Anthropic, o maior risco estrutural reside na complexidade da sua arquitectura de financiamento, com múltiplas camadas de dívida e relações circulares entre clientes, fornecedores e investidores que, em caso de deterioração das condições de mercado, poderiam revelar fragilidades significativas.

Acresce um litígio ativo com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos sobre o uso militar da sua tecnologia, bem como preocupações regulatórias globais associadas ao modelo Mythos.

Riscos da OpenAI

No caso da OpenAI, a principal vulnerabilidade é a ausência de rentabilidade até 2030, num contexto em que a Anthropic já demonstrou capacidade de gerar lucro operacional. A controvérsia de governação exposta no julgamento movido por Elon Musk, ainda que arquivado, levantou questões sobre o conflito entre a missão original sem fins lucrativos e a actual estrutura comercial.

A perda da liderança de valorização para a Anthropic poderá também fragilizar a narrativa do IPO da empresa junto de potenciais investidores institucionais.

Veredicto: qual chega ao IPO em melhor posição?

As duas empresas aproximam-se de uma potencial entrada em bolsa com perfis bastante distintos. A OpenAI continua a deter a marca mais forte do setor da inteligência artificial e uma posição dominante junto do consumidor final através do ChatGPT, uma vantagem competitiva que poucos concorrentes conseguiram replicar até agora.

A Anthropic, por sua vez, tem vindo a destacar-se pela rentabilidade. A empresa não só ultrapassou a OpenAI em valorização no mercado privado, como também apresentou uma aceleração expressiva da receita e os primeiros sinais de rentabilidade operacional, fatores que tendem a ser particularmente valorizados pelos investidores em contexto de IPO.

Se a OpenAI realizasse a sua entrada em bolsa amanhã, é provável que continuasse a captar a maior atenção mediática. No entanto, para investidores focados nos fundamentos financeiros, a Anthropic surge atualmente com uma narrativa de crescimento mais convincente, sustentada por métricas de receita robustas e uma trajetória mais próxima da rentabilidade.

A questão já não é se Anthropic e OpenAI chegarão à bolsa, mas qual das duas conseguirá convencer o mercado de que merece ocupar o lugar de próxima gigante tecnológica da era da inteligência artificial.

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